Coronavírus e gestação: Situação atual baseada em evidências científicas

Sobre os aspectos obstétricos da infecção COVID-19 é necessário considerar que esta é uma doença de aparecimento recente, não havendo conhecimento específico sobre o assunto para a elaboração de protocolos assistenciais. Em decorrência disto, várias orientações derivam da analogia com infecções causadas por outros vírus (SARS- CoV, MERS-CoV e H1N1) e tudo que existir de evidências hoje estará sujeito a modificações a partir da geração de novos conhecimentos. 

Até o momento existem duas casuísticas publicadas sobre os aspectos obstétricos e perinatais da COVID-19. A primeira informa sobre a evolução materna e perinatal de pacientes infectadas pelo SARS-CoV-2 e foi uma avaliação retrospectiva de nove mulheres que tiveram suas gestações resolvidas em Wuhan-China. A segunda casuística, também da China, relata os resultados neonatais de 10 crianças nascidas de nove mulheres (um gemelar). 
Em resumo, as manifestações clínicas nestas gestantes não foram graves e o resultado materno foi considerado bom. Todas as pacientes não apresentavam outras doenças previamente à gravidez, mas referiam história clara de exposição a pessoas com a infecção. 
A idade variou de 27 a 40 anos e a idade gestacional variou de 34 a 38 semanas, (31 semanas no caso de gêmeos). Febre e pneumonia foram observadas em todas as gestantes. 
Sobre os resultados perinatais, não houve nenhuma morte fetal, morte neonatal ou diminuição de oxigenação fetal ou neonatal. 
Não há, por enquanto, relação efetiva com parto prematuro ou restrição de crescimento fetal. 
Não foi detectado nenhum caso de transmissão vertical (entre mãe e feto na gravidez) do vírus, mas o pequeno número de casos não permite esta conclusão de forma imperativa. 

Atendimento

Para o atendimento pré-natal de gestantes sem risco epidemiológico ou clínico para a infecção COVID-19 os cuidados serão aqueles usuais com a higienização das mãos. Gestante classificada como “caso suspeito” deverá utilizar máscara de proteção e o profissional deverá utilizar ainda luvas, óculos e avental. Os casos suspeitos deverão ser mantidos em isolamento (não necessariamente hospitalar) até a definição diagnóstica, que será baseada na reação de RT-PCR. 
Mulheres grávidas com suspeita ou confirmação de infecção pelo COVID-19 devem ser tratadas de acordo com os sintomas e o grau de comprometimento sistêmico. O diagnóstico diferencial deve ser feito com o H1N1, pneumonias típicas e atípicas (bactérias multirresistentes). 
Prevenção: Para gestantes e puérperas (pacientes em até 60 dias pós-parto) são ainda mais enfáticas as orientações oferecidas habitualmente para profilaxia da infecção pelo vírus:
– Em primeiro lugar, fiquem em casa! Priorizem o homeoffice, se possível.
– Não se exponham a aglomerações desnecessariamente, pratiquem o distanciamento mínimo de 1 metro com outras pessoas;
– Evitem os cumprimentos próximos (abraços, beijos, aperto de mão);
– Não tenham contato com pessoas febris ou pessoas apresentando manifestações de infecção respiratória; 
– É rigorosamente recomendado a higienização frequente das mãos com água e sabão ou álcool em gel a 70%, evitem contato das mãos com boca, nariz ou olhos.

Malformações fetais

Até o momento não há nenhuma informação sobre o potencial do SARS-CoV-2 para causar algum tipo de malformações. Com o tempo será possível assumir informações deste tipo com segurança. 
Aleitamento materno: a liberação do aleitamento natural para puérperas infectadas por este vírus já não encontra a convergência de algumas semanas atrás. Orientação divulgada pela World Health Organization (WHO) sugere que puérperas em bom estado geral deveriam manter a amamentação utilizando máscaras de proteção e higienização prévia das mãos. Na tradução básica desta orientação a justificativa foi que “Considerando os benefícios da amamentação e o papel insignificante do leite materno na transmissão de outros vírus respiratórios, a puérpera pode amamentar desde que as condições clínicas o permitam”. A orientação do CDC Americano inclui a puérpera nesta discussão, considerando sua vontade e sua capacidade de seguir todas as orientações de higienização e uso de máscara. Por sua vez, o CDC Chinês é muito mais estrito, afirmando a indicação de separação do neonato da mãe e contraindicando o aleitamento natural. 

Pelo Ministério da Saúde do Brasil (MS), até que dados adicionais sobre o aleitamento natural estejam disponíveis, as mães que pretendem amamentar e estão suficientemente bem, tomando-se os cuidados higiênicos, não seria um impeditivo para a amamentação. 
Via de parto: até o momento, parturientes em boas condições gerais, sem restrição respiratória e elevada taxa de oxigenação podem se beneficiar do parto vaginal, bem como o feto. No entanto, com restrição respiratória, a interrupção da gravidez por cesárea, seria a melhor opção. 
As decisões sobre o parto de emergência e a interrupção da gravidez são desafiadoras e baseadas em muitos fatores: idade gestacional, idade materna condição e estabilidade fetal. Consultas com especialistas em obstetrícia, neonatal e terapia intensiva (dependendo da condição da mãe) são essenciais. 

Todas as informações aqui descritas tem caráter transitório haja visto que as referências tem atualização diária globalizando as informações de forma extremamente efetiva. 
Me coloco à disposição e com o compromisso de trazer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas por aqui. 
Desejo, profundamente, que as pesquisas avancem o mais rápido possível no caminho efetivo da prevenção e/ou da cura da infecção pelo SARS-CoV-2.
O mundo pede por humanidade, empatia, responsabilidade e amor!
É momento de cuidar-nos uns aos outros!

Fontes:
World Health Organization (WHO). Novel Coronavirus (2019-nCoV; COVID-19). Situation Report – 22. February 11, 2020.
Ministério da Saúde do Brasil (MS)
Chen H, Guo J, Wang C. et al. Clinical characteristics and intrauterine vertical transmission potential of COVID-19 infection in nine pregnant women: a retrospective review of medical records. Lancet. Published online February 12, 2020. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30360-3 [Epub ahead of print]
Zhu H, Wang L, Fang C, et al. Clinical analysis of 10 neonates born to mothers with 2019-nCoV pneumonia. Transl Pediatr 2020;9(1):51-60.
Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Interim Considerations for Infection Prevention and Control of Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) in Inpatient Obstetric Healthcare Settings. Acessado em 18/02/2020, no https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/hcp/inpatient-obstetric-healthcare-guidance.html
Wang L, Shi Y, Xiao T, et al. Chinese expert consensus on the perinatal and neonatal management for the prevention and control of the 2019 novel coronavirus infection (First edition). Ann Transl Med. 2020;8(3):47-55.
Rasmussen SA, Smulian JC, Lednicky JA, Wen TS, Jamieson DG. Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) and pregnancy: What obstetricians need to know. Am J Obstet Gynecol. 2020; Journal Pre-proof. Acessado em 29/02/, no https://doi.org/10.1016/j.ajog.2020.02.017